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A VELHA SENHORA

São 15h37m. Estou sentado à mesa na Praça de Alimentação do Madureira Shopping Rio. Divido a mesa com um adolescente que devora, com maestria, um sanduíche de três andares que, em sinal de protesto, “espirra” maionese e cat-chup para todos os lados, cada vez que é mordido. Cumprimento o guloso que, por não poder falar, levanta o polegar fazendo sinal de positivo. Finjo ignorar a lambança e dedico-me ao meu pedaço de pizza. Em menos de dez minutos o lanche está terminado (o dele e o meu). O rapazola despede-se com o tradicional linguajar dos adolescentes: - Valeu tio, fui!

Fico sozinho à mesa e entrego-me a preguiça, sem a mínima vontade de voltar para a loja onde divido a administração com a minha filha. 

Observo as pessoas transitando pelos corredores do Shopping. Uns apressados. Outros tranqüilos, geralmente em duplas, contemplando as vitrines, aparentemente sem quaisquer preocupações. Fico a pensar a quantos anos não tiro pelo menos 15 dias de férias para curtir o prazer do ócio. Hoje quebrei a infernal rotina "casa-loja-banco-loja-casa" e parei na praça de alimentação do shopping em plena hora de trabalho, coisa que raramente faço. Desde que me tornei comerciante cumpro uma estressante jornada de trabalho que nunca é inferior a 60 horas semanais. 


Sinto-me confortável e por uns poucos momentos desligo-me dos afazeres e deito-me nos braços desse ócio momentâneo. Meu olhar passeia displicente por tudo que está em minha volta. De repente sou atraído pelo olhar vago de uma velha senhora que aparentemente está igual a mim: entregue a preguiça, observando a movimentação das pessoas naquela praça de alimentação. Eu tenho 52 anos e ela deve ter entre 70 e 75.


Feições humildes, olhar um tanto sofrido, cabelos totalmente brancos. Gira com as mãos um copo vazio de coca-cola sobre a mesa e de vez em quando esboça um discreto sorriso (daqueles que não expõe os dentes). Fico a pensar no que estaria aquela velha senhora pensando. Inconscientemente, fixo-me naquele rosto que demonstra estar com o pensamento ancorado nas lembranças do passado. Não é necessário muito esforço para que eu também ancore o meu “barco” nas lembranças do passado.


Vejo-me no corpo e na alegria daqueles adolescentes, circulando, não pelos corredores de um shopping (na minha época acho que nem existiam), mas pelos parques de diversões, pelas festinhas "americanas" animadas por vitrolas, onde se tocavam Beatles, e pelos clubes, no auge da jovem guarda, quando se dançavam ao som de Fevers, Renato e seus Blue Caps, Golden Boys, Vips e muitos outros. Lembro, também, que quando era menino nunca imaginei meus pais jovens. Nunca pensei que um dia eu ficaria como eles com rugas e cabelos brancos. Nunca imaginei que um dia eu ouviria a palavra papai dirigida para mim e agora estou às vésperas de ouvir a palavra mais gratificante para um homem que vê consolidado todo o seu projeto de vida humana, profissional e familiar: vovô.


Chego a pensar que a gente, quando é criança ou muito jovem, pensa que os velhos nasceram velhos.


Hoje me vejo com 52 anos, às portas da aposentadoria, na praça de alimentação de um Shopping, viajando pelas estradas do meu passado, relembrando a minha infância, a minha adolescência, a minha juventude e os meus projetos de vida, que não foram inúteis, tentando decifrar os pensamentos de uma velha senhora que aparentemente está viajando pelas mesmas estradas que eu. Quem sabe, neste momento, os pensamentos dela estejam irmanados com o meu e juntos pensamos que um dia também fomos jovens, brincamos, cantamos, bebemos, farreamos e nos entregamos nos braços de um amor, mesmo que tenha sido de forma irresponsável, achando que nossas reservas de vida jamais se acabariam.

Permaneço ali, sentado à mesa com a mão no queixo, apenas fisicamente porque a minha alma desprendeu-se do corpo e viajou numa velocidade incrível por lugares que eu jamais pensei que voltaria e que agora tenho absoluta certeza que jamais esquecerei.


São 16h22m, tenho que ir. Recolho os meus pensamentos e deixo a velha senhora pensando por ela e por mim. Levanto e saio lentamente. Passo pela minha companheira de pensamentos e sinto vontade de interromper a sua “viagem” com um delicado e carinhoso boa tarde, mas desisto e sigo o meu caminho.


No trajeto, entre a praça de alimentação e o estacionamento do shopping, com um sorriso discreto nos lábios, penso naqueles jovens adolescentes, que hoje brincam, cantam e sorriem alegremente, amanhã, tão velhos como eu e a velha senhora, um pouco mais velhos talvez, sentados em algum lugar, observando as pessoas que circulam em sua volta, relembrando os momentos que vivem agora e esboçando um discreto sorriso que ninguém conseguirá decifrar.


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