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A ROSA DE HIROXIMA - Vinícius de Moraes

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas

Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas

Mas não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima

A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.


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RETRATO - Cecília Meireles

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

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NÃO QUERO SER O ÚLTIMO A COMER-TE - Drummond

Não quero ser o último a comer-te.
Se em tempo não ousei, agora é tarde.
Nem sopra a flama antiga nem beber-te
aplacaria sede que não arde


em minha boca seca de querer-te,
de desejar-te tanto e sem alarde,
fome que não sofria padecer-te
assim pasto de tantos, e eu covarde


a esperar que limpasses toda a gala
que por teu corpo e alma ainda resvala,
e chegasses, intata, renascida,

para travar comigo a luta extrema
que fizesse de toda a nossa vida
um chamejante, universal poema.


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O Bordado

Quando eu era pequeno, costumava sentar no chão e ficava brincando perto de minha mãe. Sempre lhe perguntava o que ela estava fazendo. Ela respondia que estava bordando. Todo dia era a mesma pergunta e a mesma resposta. Eu sempre observava seu trabalho de uma posição abaixo de onde ela se encontrava sentada e repetia:

"Mãe, o que a senhora está fazendo?"

Dizia-lhe que, de onde eu olhava, o que ela fazia me parecia muito estranho e confuso. Era um amontoado de nós e fios de cores diferentes, compridos, curtos, uns grossos e outros finos. Eu não entendia nada.

Ela sorria, olhava para baixo e gentilmente me explicava:

"Filho, vai brincar um pouco no jardim. Quando eu terminar, lhe chamo para mostrar o meu trabalho."

Mas eu, intrigado, olhando o seu bordado pelo lado do avesso, pensava:

"Por que ela usa alguns fios de cores escuras e outros claros? Por que ficam tão desordenados e embaraçados? Por que estão cheios de pontas e nós? Por que não têm ainda uma forma definida? Por que demora tanto para fazer isso?"

Um dia, quando eu estava brincando no quintal, ela me chamou:

"Filho, venha aqui e sente-se em meu colo."

Eu não podia acreditar quando vi pela parte de cima o bordado pronto! Era uma paisagem maravilhosa! Lá de baixo parecia tão confuso e desordenado!

Muitas vezes, ao longo dos anos, tenho olhado para o céu e dito:

"Pai, o que estás fazendo?" Ele parece responder:

"Estou bordando a sua vida, filho."

E eu continuo perguntando:

"Mas está tudo tão confuso, Pai, tudo em desordem. Há muitos nós, fatos ruins que não terminam e coisas boas que passam rápido. Os fios são tão escuros. Por que não são mais brilhantes?"

O Pai parece me dizer:

"Meu filho, ocupe-se com seu trabalho, descontraia-se, confie em Mim... e Eu farei o meu trabalho. Um dia, colocarei você em meu colo e então vai ver o plano da sua vida da minha posição."

Conclusão:
Muitas vezes não entendemos o que está acontecendo em nossas vidas. As coisas são confusas, não se encaixam e parece que nada dá certo. Isso é porque estamos vendo o avesso da vida. Do outro lado, Deus está bordando...

Pense nisso!

Desconheço o Autor
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SAFADA (Sonetinho gozador)

Amigo preste atenção
Em tudo o que eu vou te falar
Cuidado com essa mulher
Um dia ela vai te enganar

Essa danada não presta
Do inferno ela é chegada
Bota chifre em sua testa
E depois ri da galhada

Ela é dengosa e bonita
Na cama é quem mais se agita
Mas é pura maldição

Nunca dê mole pra ela
Ela fica na janela
Esperando um bobalhão.

P0011.2002.04
Copyright © 2002 by Magno R Almeida
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SER POETA - Florbela Espanca

Ser Poeta
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
é condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!



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